Houve um tempo em que ele caminhava pelos corredores do poder com a cabeça baixa e o peito estufado. Parecia contraditório, mas não era. Baixa a cabeça para os chefes, estufado diante dos colegas. Chamava-os de companheiros quando precisava de apoio, mas bastava o sino do castelo tocar para lembrar sua verdadeira vocação: servir. Os anos passaram. Os antigos senhores perderam o trono, alguns desapareceram da política, outros foram aposentados pelo voto — ou pela falta dele. O castelo esvaziou. As bandeiras murcharam. E ele, sem corte e sem plateia, ficou vagando pelos corredores da memória, tentando convencer a si mesmo de que ainda pertence à nobreza. Hoje, chama de “vassalos” aqueles que um dia estiveram ao seu lado. Usa a palavra como quem cospe ressentimento, talvez por não aceitar que os antigos colegas seguiram em frente enquanto ele permanece preso ao passado. Critica a submissão alheia sem perceber que passou a vida inteira ajoelhado diante de quem lhe prometia migalhas de poder. O curioso é que continua lutando. Não por ideias, não por povo, não por mudanças. Luta apenas pela chance de voltar a ocupar o velho lugar aos pés de algum novo senhor. Porque há quem desaprenda a liberdade depois de tantos anos de servidão. E assim segue o ex-vassalo: sem reino, sem rei e sem perceber que a corrente mais difícil de romper é aquela que a gente carrega na própria consciência.