O USO DAS CARAPUÇAS

Ao perceber um reencontro, não pude deixar de pensar que ninguém é tão inimigo que, amanhã, não possa se tornar amigo. O inverso também é verdadeiro: há amizades que o tempo, os interesses e as circunstâncias transformam em inimizades. Afinal, assim caminha a humanidade, entre afetos, conveniências e mudanças de lado. Mas há reencontros que despertam mais desconfiança do que surpresa. Quando antigos adversários reaparecem lado a lado, sorridentes e aparentemente reconciliados, é inevitável perguntar: foi o coração que mudou ou apenas o interesse que mudou de endereço? Na política, sobretudo, as alianças parecem ter memória curta. O que ontem era ofensa, hoje pode virar aperto de mão; o que antes era acusação, amanhã pode ser chamado de parceria. E, nos bastidores, os conchavos pelo poder seguem seu curso, silenciosos, calculados e quase sempre muito distantes dos discursos feitos ao público. O que vi, portanto, não me pareceu exatamente um reencontro de almas, mas uma aproximação ditada por necessidades e interesses. Nada de extraordinário. O mundo conhece bem esse tipo de aproximação. No fim, talvez seja melhor não julgar. Cada um sabe onde aperta a sua carapuça. E somente os que a vestem reconhecem o tamanho exato do encaixe. Os usuários das carapuças se entendem, se procuram e, ao que parece, até se merecem. E nós, simples espectadores, seguimos assistindo à velha novela humana, na qual inimigos viram aliados, aliados viram inimigos e o poder continua sendo o personagem que raramente perde o papel principal.

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