Aparentemente, as campanhas eleitorais podem estar perdendo, aos poucos, o uso natural da seriedade que uma candidatura requer. Não se trata de defender uma campanha sisuda, sem alegria ou sem entusiasmo. Mas há uma diferença entre conquistar o eleitor com simpatia e transformar a disputa eleitoral em um espetáculo de rua. Basta observar algumas passeatas e carreatas. De longe, já não se sabe muito bem se estamos diante de uma manifestação política ou de um desfile de bloco carnavalesco. A comissão de frente parece ensaiar passos de rock doido, enquanto os carros de som cumprem seu papel de trilha sonora. E, naturalmente, não poderia faltar o tradicional carro alegórico — agora motorizado, colorido e, às vezes, carregando mais animação do que propostas. No meio do cortejo, as alas se movimentam. Uns fazem gestos de agradecimento, quase como um mestre-sala diante da arquibancada. Outros acenam para o vento, para os conhecidos, para os desconhecidos e, quem sabe, para alguém que esteja assistindo de uma janela. Há quem sorria, quem dance, quem buzine e quem simplesmente acompanhe a festa. O curioso é que, no final, todos parecem muito felizes. E talvez esse seja justamente o problema: em meio a tanta música, buzina, dança e aceno, onde ficou a candidatura? Eleição, por mais que possa ter seus momentos de festa, não é carnaval. O candidato não está disputando o título de rei da animação, mas a confiança do eleitor para administrar a coisa pública. Por isso, entre uma buzina e outra, seria bom que também houvesse espaço para aquilo que realmente deveria estar no centro da carreata: ideias, propostas, compromissos e responsabilidade. Afinal, depois que o som se cala, os carros alegóricos retornam para a garagem e a comissão de frente guarda os passos de dança, fica o eleitor — e ficam também os problemas da cidade. E esses, infelizmente, não sabem dançar.