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Pero Vaz de Caminha

TRANSFORMAÇÃO

Segundo Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Na política brasileira, a velha tese científica parece ter encontrado um novo laboratório. O PSDB, durante muito tempo, ficou conhecido como o partido da dubiedade: entre o discurso e a prática, entre ser oposição e ser governo, entre criticar e, depois, fazer quase o mesmo. Aos poucos, foi perdendo espaço, força e protagonismo. Agora, a impressão é de que o MDB caminha para ocupar esse lugar. Um partido que já teve verdadeira liderança nacional parece ter perdido parte de sua identidade e passou a acompanhar justamente pensamentos e comportamentos que, em outros tempos, criticava nos tucanos. Na política, porém, nada desaparece de verdade. O poder apenas muda de endereço, a ambiguidade troca de legenda e o discurso

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FALAR OU CALAR?

Em Eclesiastes, quando o texto bíblico passeia pelas inquietações da existência humana e pela brevidade da vida, há uma lição que atravessou séculos e acabou virando adágio popular: há hora de falar e hora de calar. Parece simples. E talvez justamente por isso seja tão difícil. Há quem descubra, na vida pública, que o silêncio pode ser uma virtude. Alguns, porém, parecem ter levado o ensinamento ao pé da letra — especialmente quando chega a hora de explicar, justificar ou assumir responsabilidades seletivas: falam muito quando o assunto favorece seus interesses e descobrem a profundidade do silêncio quando as perguntas são incômodas. Mas Eclesiastes não fala de silêncio como esconderijo. Tampouco apresenta a palavra como instrumento de conveniência. Há tempo de falar, sim, sobretudo quando a verdade precisa ser dita.

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SEM ACUSAÇÃO NAS URNAS

Interessante estas eleições: até o momento, não apareceu nenhum candidato reclamando das urnas eletrônicas. Ao que tudo indica, elas finalmente se consertaram por conta própria. Estão funcionando tão bem que ninguém está chorando, dizendo que foi prejudicado por elas. É curioso como certas tradições desaparecem quando deixam de ser convenientes. No futebol, quando o time perde, a culpa quase nunca é do time. É do juiz, do bandeirinha, do VAR, do gramado, do vento… Sempre há um culpado à disposição. Na política brasileira dos últimos anos, as urnas eletrônicas assumiram esse honroso papel. Quando o resultado agradava, eram modernas, seguras e confiáveis. Quando desagradava, de repente viravam as grandes vilãs da história. Mas, nestas eleições, pelo menos até agora, reina um silêncio ensurdecedor. Talvez as urnas tenham aprendido a lição.

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O TOMBO DO DEPUTADO

A vida política é assim mesmo: quem conhece os bastidores das campanhas sabe que nem toda recepção calorosa termina em aplausos nas urnas. Com larga experiência eleitoral, o candidato a deputado federal foi a Bragança, a Pérola do Caeté, cheio de expectativas. Voltou para a capital com aquela expressão de quem viu mais do que gostaria. Pelo caminho, encontrou muitas alegorias carnavalescas, promessas de apoio e uma certa disposição para impressionar — embora, aparentemente, pouca disposição para transformar entusiasmo em votos. E, como manda a tradição da política, os “apoiadores” fizeram o pedido clássico: queriam mais… para entregar menos. Talvez seja o caso de atualizar a famosa frase atribuída a Júlio César: “Vim, vi e venci.”No caso bragantino, a paráfrase parece mais apropriada: “Veio, viu e perdeu.” Na volta à

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POR QUE SER PRESIDENTE?

O que teria estimulado três candidaturas à Presidência? Há momentos em que a política brasileira parece uma espécie de feira de vaidades, onde cada barraca oferece ao eleitor uma explicação diferente para o mesmo fenômeno: a vontade quase irresistível de chegar ao Palácio do Planalto. É difícil não perguntar o que teria estimulado algumas candidaturas presidenciais que, olhando de fora, parecem desafiar a lógica eleitoral. Ronaldo Caiado deixou o governo de Goiás para entrar na corrida nacional. Romeu Zema, depois de comandar Minas Gerais, também decidiu trocar o conforto relativo de um governo estadual pela imprevisibilidade de uma eleição presidencial. E aparece ainda Augusto Cury, conhecido por seus livros de desenvolvimento pessoal e por ter construído uma enorme fortuna com sua atividade de vendedor. A pergunta, portanto, não é apenas

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ENFRAQUECENDO AS INSTITUIÇÕES

Há momentos em que a democracia começa a ser atacada não nas ruas, mas nas palavras. Antes de questionar uma eleição, um tribunal ou o Congresso, os movimentos antidemocráticos costumam questionar a própria confiança das pessoas nessas instituições. A estratégia é antiga: transformar o que deveria ser espaço de debate em sinônimo de corrupção, incompetência ou inutilidade. Aos poucos, a crítica legítima dá lugar ao descrédito generalizado. E, quando ninguém mais confia nas regras, fica mais fácil defender soluções autoritárias como se fossem a única saída. As instituições públicas não são perfeitas. Podem e devem ser criticadas, fiscalizadas e aperfeiçoadas. Mas democracia não significa acreditar cegamente nelas; significa reconhecer que conflitos e diferenças precisam encontrar caminhos dentro das regras. Desqualificar as instituições sem propor sua melhoria é, muitas vezes, preparar

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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