MARKETING TRAVESTIDO

Pesquisa eleitoral muito antecipada não mede voto; mede barulho. Funciona mais como outdoor estatístico do que como retrato fiel da vontade popular. Sai cedo demais, quando o eleitor ainda está ocupado em sobreviver, não em escolher candidato, mas já aparece com cara de sentença. Serve, quase sempre, para turbinar nomes específicos. Cria a ilusão do “já ganhou”, atrai aliados oportunistas, libera cofres e intimida adversários. Quem aparece bem vira “fenômeno”; quem não aparece, some antes mesmo de existir. É menos ciência e mais marketing travestido de número. No fim das contas, essas pesquisas não antecipam o futuro — tentam fabricá-lo. E, como toda propaganda bem-feita, repetida à exaustão, acaba convencendo muita gente de que liderança se mede antes da campanha, antes do debate e, principalmente, antes do voto.

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AGENDAS DE FINAL DE ANO

Final de ano é quando agendas públicas e privadas entram em modo frenético. Prefeitos reaparecem sorridentes, inauguram o que dava para inaugurar, prometem o que ficou para janeiro e disputam palco com fogos e bandas. Do outro lado, empresários de eventos afinam caixas, contratos e discursos — porque dezembro, no Brasil, não é só confraternização, é sobrevivência anual. Praças viram salas de estar, palcos brotam como árvores de Natal e a cidade inteira vira vitrine. Para uns, é celebração; para outros, investimento; para muitos, apenas barulho. Mas há um consenso silencioso: ninguém quer passar o réveillon devendo favores. Assim, entre luzes, discursos e shows, o ano termina do jeito mais brasileiro possível — com festa, negociação e promessa misturadas no mesmo pacote.

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SEMPRE VIGILANTES

Fuja do macio demais, do tom excessivamente educado, da concordância automática. Desconfie de quem nunca diz não, de quem aceita qualquer missão sem pestanejar, de quem ontem estava do outro lado e hoje jura lealdade eterna. Causa cautela aquele que sempre sabe mais do que todos, que faz questão de lembrar o quanto “sacrificou” a própria carreira para impulsionar a sua. Fique atento ao que tenta te isolar, ao que sutilmente afasta você de outras convivências, como se o mundo coubesse apenas naquele círculo conveniente. Esse tipo não perde eleições nem batalhas: apenas muda de endereço. Na derrota, reaparece ao lado dos novos vencedores, com o mesmo discurso, a mesma devoção reciclada. Por vezes, os adversários são mais sinceros — ao menos não escondem o conflito. Já os áulicos bajuladores

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OS COITADOS

No Brasil, basta a palavra “corrupção” aparecer na manchete para o político já vestir a fantasia de perseguido. Não importa se há provas, áudios, planilhas ou malas — tudo vira obra de uma conspiração. A Justiça erra, a imprensa persegue, o adversário trama. Só ele, curiosamente, permanece puro, incompreendido e injustiçado. É quase um reflexo condicionado: foi flagrado? Então não é culpado, é vítima. Vítima de um sistema que, ironicamente, ele ajudou a construir.

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FESTIVIDADES DA MARUJADA

Começaram ontem, e Bragança acordou diferente. Não foi o barulho comum da cidade que anunciou o dia, mas o som antigo dos tambores, como se o chão do nordeste do Pará lembrasse aos pés apressados que ali há uma história que não se apressa. A Marujada não começa quando o primeiro marujo dança. Ela começa antes, na fé guardada em silêncio, na roupa preparada com cuidado, no olhar de quem sabe que tradição não é espetáculo: é compromisso. Em Bragança, São Benedito não é apenas santo; é parente próximo, é presença que atravessa gerações. Enquanto as cores tomam as ruas e os chapéus se alinham como ondas organizadas, a cidade parece suspender o tempo. A Marujada mistura devoção e festa sem pedir licença à modernidade. Ali, dançar é rezar com

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CASSADA SE LANÇA CANDIDATA À PREFEITA DE BRAGANÇA

No plenário, o mandato foi cassado; no discurso, parece que jamais. A vereadora de Bragança, no nordeste do Pará,Tati Rodrigues (PSDB)  saiu pela porta dos fundos da Câmara, mas entrou pela principal do Judiciário, empunhando a tentativa de um mandado de segurança como quem carrega um salvo-conduto moral. Não era apenas a possibilidade de voltar ao cargo — era, sobretudo, a chance de permanecer em cena. Cassada, mas não silenciada, ela descobriu que a política brasileira não termina com a perda do mandato. Pelo contrário: às vezes, começa ali. Entre uma petição e outra, entrevistas surgiram, discursos ganharam tom épico e a narrativa passou a ser de injustiça histórica, perseguição pessoal e coragem solitária. A cassação virou troféu; o processo, palanque. Enquanto o Judiciário decide se houve excesso ou rigor,

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“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”

 
Joseph Pulitzer

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